Estado de São Paulo só tem ‘kit intubação’ em hospitais públicos para mais uma semana

Informação é do Palácio dos Bandeirantes, que não quis fornecer dado durante entrevista coletiva de imprensa nesta segunda. Governo Doria critica Governo federal por falta de medicamentos


DIOGO MAGRI

São Paulo - 22 MAR 2021 - 21:34


Profissional de saúde com paciente em hospital no M'Boi Mirim, em São Paulo, no último 12 de março.FERNANDO BIZERRA / EFE


Com mais de 90% das UTIs ocupadas em todo o Estado, 61 municípios sem vagas e pessoas morrendo por falta de oxigênio nas filas dos hospitais, São Paulo vê no seu horizonte o colapso do sistema de saúde, um ano após o início da pandemia do novo coronavírus. Nesta segunda-feira (22), o Governo de João Doria (PSDB) afirmou ao EL PAÍS que o Estado também sofre com a escassez de remédios essenciais no procedimento de intubação de pacientes com covid-19, como anestésticos, sedativos e relaxantes musculares. Segundo a assessoria, os hospitais públicos estaduais só têm estoque de medicamentos para mais uma semana.


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A intenção da reportagem era fazer o questionamento sobre a duração do estoque atual dos remédios na entrevista coletiva do Governo paulista, conduzida pelo vice-governador Rodrigo Garcia (DEM) na tarde desta segunda, no Palácio dos Bandeirantes, e aberta para perguntas de jornalistas. No entanto, a assessoria do Governo considerou a pergunta “alarmista para a sociedade”, já que o evento contou com a transmissão ao vivo do YouTube, TV Cultura e Portal UOL. Portanto, passou as informações ao EL PAÍS apenas ao fim da coletiva. Além de Garcia, o evento com contou com a presença do secretário de Saúde, Jean Gorinchteyn,dos coordenadores do Centro de Contingência do Estado, Paulo Menezes e João Gabbardo, além dos secretários de Desenvolvimento Econômico e Regional, Patrícia Ellen e Marco Vinholi.

“Atualmente, o Estado tem estoque estimado para uma semana para os hospitais públicos que atendem casos de covid-19″, diz a nota do Governo. “É fundamental que os gestores dos serviços de saúde que compõem as redes pública e privada de saúde mantenham o monitoramento da sua demanda, utilizem racionalmente estes produtos e otimizem medidas para garantir assistência a quem precisa”, continua.

O texto ainda responsabiliza o Governo federal pelo desabastecimento dos medicamentos em São Paulo. “A Secretaria da Saúde vem cobrando o Governo Federal por medidas ‘expressas e urgentes’ para abastecer a rede pública de saúde com medicamentos utilizados em intubação. É necessária uma centralização e uma política nacional para que os pacientes continuem sendo assistidos adequadamente”, diz o texto. “Apesar disso, o Governo federal fez somente uma liberação de neurobloqueadores” em quantidade insuficiente, reclama.

Apesar da equipe de saúde não falar em prazo para acabar os medicamentos no evento, o desabastecimento do Estado foi assunto ao longo entrevista coletiva. Questionado sobre “como está a situação” dos chamados kits anestésicos, Rodrigo Garcia lembrou que o Governo estadual tem o controle sobre a rede estadual, e que cabe a cada setor, municipal ou privado, fazer o mesmo com seu estoque. “Mais uma vez, fica clara a falta de coordenação do Ministério da Saúde”, opinou Gorinchteyn. “O país inteiro precisa desses kits, é natural que o consumo aumentado pudesse promover algum risco de desabastecimento”, disse. Da mesma forma, Gabbardo pontuou que cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) implementar medidas para tirar o país dessa situação de desabastecimento, como facilitar a importação e o processo de registro desses medicamentos adquiridos de outros fornecedores.

Em resposta, o Ministério da Saúde diz que a aquisição do “kit intubação é de responsabilidade de Estados, Distrito Federal e municípios”. Segundo a pasta, foram definidas estratégias para auxiliar os Estados no abastecimento, como requisição dos estoques excedentes das indústrias; aquisições internacionais; incremento da requisição de informações para harmonização de estoques e distribuição; e pregões eletrônicos nacionais, possibilitando a adesão dos Governos estaduais. Ainda serão realizadas reuniões nesta segunda e terça (23), com representantes das indústrias de medicamentos, para a efetividade dessas ações dentro de “soluções emergenciais”. Na semana passada, governadores cobraram do ministério a mobilização para a compra de medicamentos no mercado internacional.

“Pedimos ajuda ao MS, mas optamos por fazer mudanças de protocolos, usando outros medicamentos disponíveis que garantem que as pessoas permaneçam intubadas, sem qualquer prejuízo a sua assistência. Estamos validando esses protocolos”, afirmou o secretário de Saúde, sem detalhar quais são os novos protocolos ou medicamentos. Gorinchteyn, no entanto, reforçou que não faltam kits anestésicos em São Paulo. “Temos uma logística estadual que faz com que uma região acabe suprindo a outra”, justificou. “Todas as atitudes são tomadas de forma preventiva para não correr esse risco. Procediremos compras emergenciais se for necessário”, concluiu o secretário. Neste domingo (21), o prefeito de São Sebastião, Felipe Augusto (PSDB), afirmou que a cidade no litoral norte do Estado só tinha estoque de medicamentos para esta segunda-feira.

Na mesma coletiva, foi anunciado que o Governo de Doria mobilizou alguns setores privados para auxiliar no fornecimento de oxigênio para pacientes internados com covid-19. Segundo o vice do tucano, a empresa de bebidas Ambev doará, daqui a 10 dias, todo o oxigênio produzido por uma usina em Ribeirão Preto. Serão, em média, 125 cilindros por dia para a rede estadual, municipal, filantrópica e privada.

São Paulo tem, até o momento, 91,2% dos seus leitos de UTI ocupados, com 12.068 internados, além de 16.570 pacientes em enfermaria. O número de municípios em colapso de saúde era de 71 na sexta-feira (19), mas diminuiu para 61 três dias depois. Em comparação com a semana passada, a média diária de casos aumentou 17,7% (14.704 confirmados por dia), a de internação subiu 18,8% (3.086 por dia) e a de mortes cresceu 35,4% (493 óbitos por dia). Desde o início da pandemia, são 2.311.101 casos confirmados e 67.602 mortes pelo novo coronavírus.

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