Em alta no governo Bolsonaro, destruição do Cerrado dispara 7,9% e é a maior desde 2016

Divulgados sem alarde, dados do Inpe confirmam tendência de aumento da devastação observada desde o início do mandato


Murilo Pajolla

Brasil de Fato | Lábrea (AM) | 04 de Janeiro de 2022 às 07:50




Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado alimenta oito das 12 principais bacias hidrográficas brasileiras - SOS Cerrado


A destruição do Cerrado, a savana mais biodiversa do planeta, segue em ritmo acelerado no Brasil e disparou 7,9% em 12 meses. Foram perdidos 8,5 mil quilômetros quadrados de vegetação nativa, área equivalente a quase seis vezes a cidade de São Paulo.


Embora abranjam o período entre agosto de 2020 a julho de 2021, os dados foram divulgados, sem alarde, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão do governo federal, na véspera do ano novo, em meio às festas.


A extensão desmatada é a mais alta desde 2016 e representa mais um marco de devastação ambiental no governo de Jair Bolsonaro (PL), aliado fiel do setor mais destrutivo do agronegócio.


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De acordo com estudo do Mapbiomas, a pecuária e a agricultura de exportação foram responsáveis por 99% do desmatamento do Cerrado, que já perdeu praticamente metade da cobertura vegetal original.

As estatísticas do Inpe revelam ainda que a chegada de Bolsonaro ao poder interrompeu uma trajetória de queda drástica da devastação no bioma, constatada entre os anos de 2004 e 2017.






Tendência de queda no desmatamento do Cerrado foi interrompida em 2018 / Reprodução/Inpe


Nesse ritmo, o algodão, o milho e principalmente a soja tomarão o lugar das 12 mil variedades de plantas típicas da região. Biodiversidade que guarda em si a possibilidade de uma economia sustentável sem devastação, conflitos agrários ou desigualdade social.


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Identidade sufocada


“Quando falamos em 12 mil espécies, estamos falando em 12 mil possibilidades de bioprospecção, fármacos, cosméticos, frutas, compotas. É uma diversidade gigantesca, e a gente está descobrindo tudo isso, mas em um ritmo muito aquém do desmatamento. Com a soja, a gente está jogando fora todas essas possibilidades.”

A observação é do geógrafo e pesquisador Yuri Salmona, diretor do Instituto Cerrados. Ativa desde 2011, a entidade é uma das ONGs que estimulam a preservação ambiental e o desenvolvimento da economia regional, com foco no fortalecimento das comunidades tradicionais.

“A gente acha muito bonito importar uma série de frutas e bebidas de países europeus, principalmente França e Itália, mas tem uma profunda dificuldade de olhar para a nossa riqueza. A gente está abrindo mão da nossa identidade por soja”, reflete o diretor do Instituto Cerrados.


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Espalhado por 24% do território nacional e 11 unidades da federação, o Cerrado brasileiro foi mais devastado em três delas: Maranhão (2,2 mil km²), Tocantins (1,7 mil km²) e Bahia (925 km²). Elas compõem o chamado Matopiba, junção das siglas dos três estados - além do Piauí - onde a monocultura avança agressivamente desde os anos 80.


“Pau Brasil, cana, ouro, petróleo, soja e carne. A gente tem um arranjo onde o Brasil está se enquadrando no mercado internacional da mesma maneira que fazia quando a gente foi colonizado. A base da balança comercial é exportar commodities de baixo valor agregado”, afirma o geógrafo.


A ilusão do desenvolvimento


A essa altura, a cumplicidade do governo federal com criminosos ambientais já é mais do que conhecida. “A questão é uma falta generalizada de planejamento, capacidade de monitoramento, ações de comando e controle e um planejamento e ocupação do cerrado de forma inteligente”, registra Salmona.


A ausência de uma política econômica nacional voltada ao desenvolvimento sustentável, no entanto, constitui outro fator decisivo para a proliferação da monocultura no Cerrado, cada vez mais destrutiva.

“A lei Kandir deixa de cobrar ICMS de produtos não manufaturados de origem agropecuária. Ou seja, essa grande exportação não está voltando em termos de recursos para investimento no país. Sendo que a infraestrutura que permite essa exportação é financiada pelos cofres públicos”, critica.


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O Plano Safra, programa federal que concede anualmente crédito a pequenos e médios produtores, também estimula as atividades agrícolas predatórias ao negligenciar os pequenos produtores e agroextativistas.

Dos R$ 251,2 bilhões em recursos do Plano Safra 2021/2022, menos de R$ 40 bilhões foram alocados para a agricultura familiar. Na edição anterior, o índice era 19% menor. A falta de incentivo à economia verde na esfera nacional, segundo o pesquisador, é repetida nos âmbitos estaduais e municipais.

Modelo agroexportador de commodities está entre as principais causas da insegurança alimentar no meio rural / SILVIO AVILA / AFP

“Então a gente tem um estado massivamente financiando aquele modo de produção de monoculturas, de latifúndios para exportação de commodities de baixo valor agregado”, destaca.

Como a atividade monocultora é desvinculada do desenvolvimento local, quando fronteira agrícola chega, o resultado é o desemprego e o aumento da concentração de renda, especialmente na mão de quem lucra em dólar com as exportações.


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“Você pode até ter um aumento do IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] momentâneo porque você acaba ‘exportando’ a população para a próxima fronteira agrícola. Porque ali você vai ter poucos empregos, e de uma mão de obra relativamente qualificada. E aquela massa de pessoas vão ficar desempregadas”, explica o diretor do Instituto Cerrados.


Apagão de dados

A série histórica do desmatamento no Cerrado começou em 2000, mas seu futuro é incerto. Segundo a WWF-Brasil, o PRODES Cerrado - projeto de monitoramento conduzido pelo Inpe que gerou os dados presentes nesta reportagem - está ameaçado pela falta de verbas.


"Neste cenário de clara tendência de aumento de desmatamento do Cerrado, o risco de inviabilização do PRODES Cerrado a partir de janeiro de 2022 por falta de verba equivale a uma carta em branco para os desmatadores”, afirma Mariana Napolitano, gerente de ciências do WWF-Brasil.


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“É também mais um ataque à produção científica nacional e também ao papel fiscalizador do Estado que, sem dados atualizados e confiáveis, fica com menor capacidade de implementar ações e políticas ambientais", complementa.



Edição: Vinícius Segalla