Arte da resistência: Pereira da Viola e Dito Rodrigues são homenageados em São Paulo

Os dois músicos receberam o título de cidadão paulistano na Câmara Municipal de São Paulo

Foi ao som do hino nacional, na execução potente de Pereira da Viola, que teve início a cerimonia de entrega do título de cidadão paulistano ao músico e a seu irmão e parceiro de arte, Dito Rodrigues. O simbolismo não poderia ser maior. Diante das tentativas de apropriação dos ícones do Brasil pela direita conservadora, o hino – tocado pelo homem negro que figura entre os grandes violeiros do país – volta a seu lugar: o povo brasileiro.

As origens de Pereira e Dito são a expressão pura e, por que não dizer óbvia da diversidade cultural, do fervor artístico e da poesia política presentes nos sertões, interiores e nas periferias das grandes cidades. Os irmãos nasceram em uma pequena comunidade rural no Vale do Mucuri, em Minas Gerais. O território quilombola preserva cantorias, danças e tradições até os dias de hoje.

Ao vivenciar essas manifestações, os músicos autodidatas se tornaram instrumentistas de qualidade excepcional, que se reflete também no carinho pelo público. Durante a cerimônia na Câmara Municipal de São Paulo, nesta sexta-feira (6), os dois conversaram com admiradores, tiraram fotos e celebraram com os presentes.

Dito, o irmão mais reservado e de pouca fala, agradeceu em palavras breves e sucintas, mas se emocionou visivelmente ao ouvir o discurso do irmão, que pregou a resistência pela arte.

“Fazemos parte de uma minoria, porque somos persistentes e somos resistentes com a arte que desenvolvemos. A princípio uma arte feita para satisfazer o nosso interior, o nosso ego e os nossos desejos pessoais internos. Mas quando vêm momentos como esse, a gente perceber que aquilo que foi feito para acalentar os nossos corações, não foi feito só para nós. Atravessou fronteiras e, neste momento, nós sabemos que já chegamos em muitos corações.”

Pereira foi enfático ao defender a diversidade como elemento essencial da arte popular brasileira.

“Essa arte tem que vir com a diversidade, reconhecendo a importância daqueles que ainda se mantêm na terra, se mantêm na sua comunidade, se mantêm nos assentamentos, nos acampamentos. Essas trincheiras, de quem faz esse tipo de arte, vão sempre dialogar com aqueles que lutam e que sonham com uma vida mais digna, mais honrosa para toda a humanidade e não apenas para uma meia dúzia que querem matar e não querem vida.”

Essas trincheiras, de quem faz esse tipo de arte, vão sempre dialogar com aqueles que lutam e que sonham com uma vida mais digna, mais honrosa para toda a humanidade e não apenas para uma meia dúzia que querem matar e não querem vida.”

Para uma plateia emocionada, o músico reafirmou a arte como resposta às opressões.

“A cada um que eles destroem ou matam literalmente – ou estão nos matando com o veneno jogado na nossa ou tirando os nossos direitos – a cada um que eles vão destruindo, eles não imaginam que primeiro eles estão se destruindo. A nossa arte vem para contrapor a barbárie, vem para contrapor o consumismo. A nossa arte vem para alimentar um lugar que nós, como espécie, precisamos, que é alimentar o nosso espírito e a nossa alma.”

A composição da mesa não poderia representar melhor a diversidade da resistência social e política que vem se formando no Brasil. Pereira e Dito estavam cercados pelos vereadores Jair Tatto (PT) e Arselino Tatto (PT), que propuseram a homenagem e Eduardo Suplicy (PT). Jair ressaltou o simbolismo da ocasião. "Eles estão cantando o que a gente pode perder: a diversidade".

Estavam presentes também Fernanda Curti, da Executiva Nacional do PT e Silvia Helena, do Coletivo Nacional de Mulheres, além de, Delwek Matheus, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ele lembrou da ligação dos dois músicos com o MST e ressaltou que tanto a homenagem quando a arte dos violeiros fazem parte de um conjunto de ações de resistência ativa.

“Essas iniciativas que as organizações, as autoridades e os mandatos têm tomado no sentido de fazer esse enfrentamento em um momento difícil, que o povo brasileiro vem passando e que o povo paulista vem passando. É um momento de muita contradição, essa contradição de classe em que os governos vêm tentando destruir fundamentalmente a questão da educação e questão da cultura. Porque certamente destruir está destruindo a resistência do povo brasileiro. Queremos agradecer e engradecer demais essa atividade que está acontecendo aqui, porque faz parte desse processo de resistência ativa do povo brasileiro, do povo do interior, do povo campo, que carrega essa cultural da nossa história e dessa formação do povo brasileiro.”

Se começou com o hino nacional brasileiro, a cerimônia foi encerrada com uma canção que estará no próximo álbum de Pereira da Viola e Dito Rodrigues, chamada Negra Menina África. No bis, os artistas reuniram todos os músicos que estiveram na cerimônia: Antônio Dias, Cícero Gonçalves, o grupo Encontros e Cantorias e a dupla Ivan Lobo e Vitor Cesar.

Edição: Rodrigo Chagas

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